quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Método gilbertiano para digerir emoções


Digerir sentimento é que nem digerir alimentos, afinal sentimento é alimento de alma.

Preciso de tempo para digerir emoções. Tempo para que elas cheguem, entrem e sentem em seus devidos lugares. Aceito a lentidão do meu metabolismo emocional. Tem gente por aí que nem mesmo está a par disso, de que os sentimentos precisam de tempo para se acoplarem devidamente, sem sacolejar dentro em nós como peças avulsas de um dominó desfalcado.

Há pessoas que engolem as emoções sem o menor aparato culinário, sem sal e sem pimenta.

Há também gente muita magra, de metabolismo rápido, e são de dar inveja e pena, pois deixam a dúvida de serem vazias.

Há os gordos, lentos e sofredores. Guardam em si tantas emoções sem digerir ou apenas ruminadas, por serem esfomeados em sentir. Estão na verdade abarrotados, perdidos em meio a uma profusão emocional.

Eu tenho muita fome e pouco espaço para guardar tudo que quero comer, por isso escolho entre as frutas do tempo as emoções do momento.

E recomendo mastigá-las no mínimo 50 vezes e depois dá-las o repouso da digestão, como num imenso estômago de emoção. Mas nunca engoli-las por inteiro, como que morto de fome, pois as emoções não se dão a quem morre.




Morreu um rei, salve o rei que vai chegar

Não sei sofrer, não sei chorar, eu sei me conformar

Tin Tin Por Tin Tin/ João Gilberto

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Vento

Enquanto os cabelos secavam ao natural sentiu frio no corpo, frio na alma. Sentir frio não é das melhores sensações que um corpo possa sentir. Nem uma pobre alma. Galgou os pés descalços em chão frio e sentiu inteira um arrepio ruim, porém de uma necessidade de morte, pois morrer também é necessário. Às vezes.

Lembrou de Elis dizendo que Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele e pensou em seu próprio coração, cravado fundo no peito e calado. Lembrava que possuía um quando sentia o arrepio fundo pedindo um pouco de calor, ou um pedaço de cobertor que o valesse, que o aquecesse.

Naufragado como um barco sem vela, encalhado como um navio sem rumo, a última vez que o sentiu não soube se era o seu mesmo que funcionava como um relógio antigo de parede ou se era o dele, tão próximos estavam.

Nunca soube separar o que sentia do que ele sentia. Não havia troca, apenas acompanhamento. Ela obedecia ao que ditava o coração dele, seu coração seguia à risca o outro coração. Por isso não separava os batimentos. Eram os mesmos que cronometravam o fogo e metrificavam o gelo.

Mas corações diferentes não podem bater iguais por muito tempo. A fogueira ou a geleira não são as mesmas. A intensidade do fogo de um pode não ser suficiente para derreter o gelo do outro. E o gelo do outro pode ser por demais intenso e apagar o fogo de um. É o momento em que desejam amar sem cronômetros ou métricas e ter-se apenas os batimentos como marcadores. Se o coração bate ululante ou recusa-se a dar voz.

Sentiu mais alguns arrepios e frio na barriga, enquanto ainda secavam os cabelos. Lembrou-se então que era inverno. E foi fechar a janela aberta.








As aparências enganam/Elis Regina
Composição: Sérgio Natureza/Tunai


As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

domingo, 1 de agosto de 2010

Invernal

Os franceses costumam fazer arrumação de primavera. Eles abrem a casa para os ares floridos adentrarem. Fim de inverno, começo de primavera, e as janelas se abrem para a vida recomeçar.

Desorganizada por decreto, não me dou às arrumações. Não muito profundas. Estando no Brasil, tristes trópicos que só possuem duas estações bem definidas, em pleno julho, em férias de tudo, resolvi arrumar minha vida, iniciando por armários e papéis.

Minha arrumação é de inverno. Não abro minhas portas para os ares frios, apenas parto minha vida em duas, tento organizar o que na verdade não tem ordem. O verão não ajudou. Queimou todos os meus sonhos e planos de futuro. Talvez o inverno faça nascer algo para colher no meu jardim.

Duas estações: uma acende a outra apaga. O que irmana-as é a sempre acesa chama. Verão acende fogueiras de paixões, incandescentes labaredas de ilusões. Inverno vem não apagar de todo, mas para acalmar quem já muito se queimou.

Tudo deposto, tudo volta a seu posto de mito. Dizem que há rosas que nascem no inverno e amores que nascem da dor. É no frio que floresce o ipê amarelo. As folhas despencam e deixam brilhar as flores amarelecidas de frio e saudade do sol.

Resultado de arrumação: Roupas com cheiro de lembranças, gastas pela memória. Papéis inúteis guardados para ter utilidade, preencher os vazios solitários dos móveis. Caridade e reciclagem são seus destinos finais. Re-ciclo. Novo início. Revolução, volta ao começo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Não quero ser na tua vida a mulher-vento que passou.
Ainda mais em pleno agosto...
Quero que fiques com meu sabor e prenda do meu corpo o gosto.





terça-feira, 27 de julho de 2010

Abismo

Chega-se numa fase crítica, em que não mais se pode voltar atrás. Como num abismo em que a única escolha é se deixar cair, pois a estrada em que se poderia seguir já não existe mais. É preciso partir. Sem que se saiba para onde nem por que. Mas o corpo não responde, paralisado de medo. Um grito ecoa dentro de si: Vai! A obediência é negada, tentando sobreviver. Mas não se sobrevive sem dor. Que faz parte da luta. Uma das obrigações da vida é se obrigar. Apagar o lustre da intuição e seguir na contramão. Não se vive sem errar. Quebrando cara e coração. Dor é fundamental para estar vivo, dói, mas passa. Depois sentimos outra dor, sempre mais forte que a anterior, pois o que dói é a dor presente, a dor passada agora é dor ausente. O que resta é se jogar, mergulhar no abismo sem fundo, obrigar-se à.

sábado, 24 de julho de 2010

Perdida e desocupada

fitando a quem passasse e tentando aprisionar o mistério que cada um carrega em si. As pessoas na verdade são simples, os mistérios quem inventam são os outros. O importante é não cair nesses mistérios inventados por outros, nem inventar mistérios alheios. O que implica em minha perdição é meu vício de criar mistérios para outros, que culminam em meus próprios mistérios descobertos não por mim, perdida que estou no mistério alheio. Criar mistérios funciona como espelho.

Não consigo parar. Penso, penso, penso. Crio e recrio mistérios diariamente, sem trégua, sem intervalos entre si. Pior para mim. Formo um terço profano de mistérios humanos. E as pessoas são tão simples. O difícil são os mistérios.

Eu sou uma bobinha. Meu mistério é esse, o que inventam para mim. As pessoas são simples, eu, avessa a tudo, não sou. Sou maior que meu mistério. Na verdade me perco na realidade, me desfaço em poeira de estrela esquecida num porão qualquer dentro de um pote luminoso. Clarice escreveu o ovo para um congresso de bruxos. Eu não me dou ao luxo. Escrevo por precisão, necessidade irmã das necessidades de qualquer humano. não escrevo nem por arte nem por vaidade. E me aflige usar essa primeira pessoa mal passada, visão calcificada. Além disso não sou nada, nunca desejei ser nada.

A culpa é minha. Todos os mistérios são meus, meu modo de ver o mundo através de olhos míopes. Meu modo de enxergar a mim sem mistérios, como uma página em branco, inacabada, caçando em outros o mistério que não conheço de mim. Reflexo do refletido alheio.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Meu namorado imaginário

real

Não quero um namorado imaginário porque me lembra sonho, utopia. Um ser tão além, de pluma e sem base. Meu homem dos sonhos é diferente do meu homem da realidade, vasto é o campo que os separa.
O que me encanta é realidade sensorial, palpável por olhos e narizes sensitivos, tátil por mãos bêbadas, inteligível por ouvidos sem razão. O que eu quero mesmo é o real. O homem real que misture o feijão com o arroz no prato, homem que entorte o garfo. O homem real que sente cócegas e acorde no meio da noite, assustado com minha presença incomum em sua cama, homem com trauma de infância. Que me desperte a vontade de ser como ele, de morar dentro dele, de enxergar o mundo dele.
Um homem que não me prometa nada, pois prometer é eternizar-se, tornar-se Deus. Que me dê seu corpo como quem oferece água a quem tem sede. Que me tire todos os porquês. Que me leve à praia num dia de chuva. Que more do outro lado da cidade e construa uma ponte sólida da minha casa a sua. Que tenha o cheiro tranqüilizador do amaciante. Que diga que meu gosto é diferente de tudo que ele já provou. De tudo e de todas.
Homem real que me faça sonhar, gastar meu sono em sonhos. Homem humano que me faça também humana. Humana e mulher. Uma chama que me acenda. Um homem que me mostre tudo que eu não sei. Que de sua voz nasçam imagens. Que meu corpo inteiro palpite ao ouví-la.
Não quero que seja pedra e se emplume. Quero que seja pluma e se empedre. Que por dentro seja macio, leve como um menino que sonha. Mas que seja minha fortaleza, meu porto seguro nas horas de fraqueza.
Que mude meus olhos de cor e transforme-os em pedras de âmbar para guardar dentro deles sua imagem fossilizada.
Um homem apenas. E humano. Que me faça acreditar que todos os outros são imaginários.