sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

da [falta de] razão


Vontade de separar as partes do meu corpo só para ver se dói menos do que dói tudo junto. Não adianta. A dor não é física. Há apenas um ponto físico que concentra toda a dor. O resto é fluido e intocável, e por isso incurável; doença de alma.

O que Tiradentes sentiu ao ter o corpo separado em partes? Sentiu dor, decerto; dor maior foi a de se ver abandonado e encurralado por seus companheiros de ideologias inconfidentes. A segunda dor, a de ter o corpo cortado em peças como um boi, decepou também a primeira; para ele deve ter sido então um alívio.

E quem não sente uma pontinha de felicidade na dor? Eu sinto uma plenitude incomum... torno-me a mulher bonita de Vinícius, uma mulher que possui qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chore... porém em instantes minha tristeza se dissipa... 5, 4, 3, 2, 1... minha promiscuidade de sentimentos é tamanha. Não permaneço em uma dor por muito tempo: me dá ânsia; como também não fico parada por muito tempo: me dá ânsia; como também não suporto não fazer nada por muito tempo: me dá ânsia; como também esperar o tempo resolver por muito tempo: me dá ânsia.

Será que alguém ousou perguntar a Tiradentes: preferes viver e ser feliz ou ter razão?
Como ele preferiu ter razão, restou-lhe a morte, solução para a vida sem razão.

Eu quero também ter razão. O que é a felicidade de um momento apenas se comparada ao troféu de uma boa razão carregado sempre nuns braços vitoriosos? E se existisse a opção ser feliz e ter razão? Me responderiam os donos da razão: ser feliz é ter razão.

Isso abala um pouco a mulher sem razão que sou e sempre fui e sempre serei... minha falta de razão me obriga sempre a ouvir meu homem, meu coração. Opção não pensada, escolher a vida, ser feliz mais ou menos, ouvir meu coração para chegar numa razão, não verdadeiramente minha, mas uma razão pega de empréstimo, uma mão estendida em tempos de guerra, um cabo onde se segurar em meio a tormenta.

Forma de manter inteiro meu corpo, sem decepar nenhuma parte, pregadas as articulações por pregos cheios de razão emprestada. Para ter felicidade promíscua.

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